A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou, na manhã desta quarta-feira (9), a terceira fase da Operação Pentágono, com o objetivo de cumprir ordens judiciais relacionadas às investigações do que é apontado como o maior e mais violento roubo já registrado no estado. O grupo criminoso planejava subtrair cerca de R$ 30 milhões de uma unidade da empresa Brinks, em uma ação ocorrida em abril de 2023, no município de Confresa (a 1.048 km de Cuiabá), utilizando a modalidade conhecida como “domínio de cidades”.
Ao todo, são cumpridas 97 ordens judiciais, incluindo 27 mandados de prisão preventiva e 30 de busca e apreensão, além do bloqueio de 40 contas bancárias. As medidas foram autorizadas pela 3ª Vara Criminal de Barra do Garças e visam atingir tanto executores quanto financiadores do crime.
A nova fase da operação ocorre exatamente na data em que o ataque completa três anos e representa um avanço relevante nas investigações conduzidas pela Gerência de Combate ao Crime Organizado. Segundo a Polícia Civil, os trabalhos apontam para a atuação de uma organização criminosa com estrutura interestadual, alto grau de planejamento e divisão detalhada de funções.
Além do cumprimento das ordens judiciais, a operação busca ampliar a responsabilização penal dos envolvidos, desarticular a estrutura do grupo, coletar novas provas e avançar na identificação e bloqueio de bens adquiridos com recursos ilícitos — estratégia que tem sido priorizada no combate ao crime organizado no país.
Divisão por núcleos
As investigações indicam que ao menos 50 pessoas participaram diretamente da ação criminosa, considerada o maior crime patrimonial da história de Mato Grosso. O grupo operava de forma segmentada, com liderança definida e divisão em seis núcleos: (1) Núcleo de comando e financeiro, (2) Núcleo de planejamento e logística, (3) Núcleo de execução, (4) Núcleo de apoio e suporte no estado do Pará, (5) Núcleo de apoio e suporte no estado do Tocantins e (6) Núcleo de locação veicular, responsável por garantir meios para a fuga.
De acordo com a Polícia Civil, as atividades do grupo se estendiam por diversas cidades e estados, com o objetivo de viabilizar ações de grande porte por meio do chamado “domínio de cidades”, estratégia que envolve planejamento prévio, uso de armamento pesado e ações coordenadas para neutralizar forças de segurança locais.
Financiamento dos crimes
As apurações também revelaram que os recursos utilizados pela organização criminosa, especialmente pelos integrantes do núcleo de comando e financeiro, têm origem em outros crimes de grande impacto, como roubos a bancos e transportadoras de valores registrados em diferentes regiões do Brasil.
Além disso, armas apreendidas e investigados identificados já teriam ligação com outras ações criminosas, incluindo delitos de médio e pequeno porte que funcionavam como base para esquemas posteriores de lavagem de dinheiro — prática comum em organizações estruturadas.
Segundo o delegado titular da GCCO, Gustavo Belão, esta etapa da operação é considerada estratégica por focar nos principais responsáveis pelo planejamento e financiamento da ação.
“São criminosos que planejaram, financiaram e executaram a logística do terror vivenciado naquele dia na cidade de Confresa, sendo que pelo menos quatro alvos estiveram na linha de frente do crime. O trabalho demonstra que não há fronteiras para a Justiça, seja ele o financiador do Sudeste ou o financiador no Norte, todos serão responsabilizados pelo crime”, destacou.
O caso
O crime ocorreu em um domingo, 9 de abril de 2023, quando cerca de 20 criminosos fortemente armados sitiaram a cidade de Confresa. Em uma ação coordenada, parte do grupo invadiu o quartel da Polícia Militar, rendeu policiais e incendiou o prédio, enquanto outros integrantes promoveram destruição de veículos e imóveis públicos, instaurando um cenário de pânico.
O principal alvo era a unidade da empresa Brinks. O grupo utilizou explosivos de alta potência para tentar acessar o cofre, mas não conseguiu concluir o roubo e acabou fugindo, abandonando veículos e parte dos equipamentos utilizados.
Domínio de cidades
Essa modalidade criminosa se caracteriza pelo uso extremo de violência e demonstração de poder bélico, com o objetivo de intimidar autoridades e a população local. Envolve etapas como planejamento, recrutamento, invasão coordenada, controle temporário da cidade e posterior fuga.
Geralmente, os criminosos utilizam armamento de grosso calibre, veículos adaptados, explosivos e até uniformes táticos, além de bloqueios e ataques a pontos estratégicos para dificultar a reação das forças de segurança.
O ataque em Confresa seguiu esse padrão, com uso de explosivos, incêndios, restrição da liberdade de moradores e ações simultâneas para impedir a resposta policial.
Operação Pentágono
A primeira fase da operação, deflagrada logo após o crime, resultou na prisão de três suspeitos nos estados do Pará e Tocantins, além da identificação de imóveis utilizados como base de apoio na cidade de Redenção (PA).
Nos dias seguintes ao crime, 18 integrantes do grupo morreram durante confrontos com forças de segurança na região de Pium (TO), no âmbito da Operação Canguçu.
Já em outubro de 2023, durante a segunda fase da Operação Pentágono, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão em seis estados. Na ocasião, foram apreendidos armamentos, incluindo um fuzil, centenas de munições, equipamentos eletrônicos e veículos utilizados pela quadrilha, além da prisão de integrantes responsáveis por apoio logístico e financeiro.
Apoio interestadual
A operação contou com apoio de unidades especializadas das Polícias Civis de diversos estados, evidenciando a integração no combate ao crime organizado. Participaram equipes de São Paulo, Tocantins, Maranhão, Rio Grande do Norte e Pará, incluindo departamentos de investigação criminal, inteligência e grupos táticos.
A ação também integra o planejamento estratégico da Polícia Civil de Mato Grosso para 2026, dentro da Operação Pharus, vinculada ao programa estadual de enfrentamento às facções criminosas.
Além disso, a ofensiva faz parte das iniciativas da Rede Nacional de Unidades Especializadas de Enfrentamento das Organizações Criminosas, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio da Diretoria de Inteligência e Operações Integradas (Diopi) da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), que atua na articulação de estratégias integradas de combate ao crime organizado em todo o país.